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Race Across America 2023 · Companion

Os números por dentro

Oceanside (CA) → Annapolis (MD) · 13–25 de junho de 2023. O que o relógio registou ao longo de 11 dias, 20 horas e 1 minuto — e o que esses dados dizem que a narrativa contou por dentro.

Fonte: Garmin Connect. A recolha de dados tem limites, que são assinalados.

2 → 50 °Camplitude térmica, em menos de 48 h
36 630 mde subida acumulada (registo do relógio)
~25 km/ha rolar · ~17 km/h de ponta a ponta
~9000 kcalqueimadas por dia — défice crónico
~2 sem.até o sistema nervoso (VRC) normalizar
288 ho limite dos doze dias — o número que dá o título
01

As condições — o arco térmico

O relógio registou temperaturas entre 2 °C e 50 °C ao longo da travessia. O extremo superior surge no Dia 2, no deserto (Califórnia/Arizona, perto do nível do mar); o inferior no Dia 4, no Wolf Creek Pass, no Colorado, onde o Garmin marca 3309 metros de altitude. Entre um e outro passaram pouco mais de 48 horas — o que confirma, com dados, a frase à Lusa na chegada: subir a “passagens de montanha a 3200 metros, menos de dois dias depois de ter atravessado o deserto, a zero metros, com 50 graus”. E o número medido fica ainda aquém do que se sentiu: no deserto o asfalto chegava aos 60 °C e irradiava calor.

Uma ressalva: o Garmin mede temperatura, não humidade. A diferença entre o calor seco do deserto e o calor abafado do Midwest (Kansas/Missouri, Dias 8–9, com máximas de 46 °C) não tem, por isso, registo direto no relógio.

02

A altimetria — o número real

Somando o desnível positivo dos 12 blocos registados, o total é de 36 630 metros (cerca de 120 200 pés). O route book e a imprensa da prova anunciavam entre 175 000 e 179 000 pés (53 300–54 600 m). O ponto mais alto bate certo — Wolf Creek a 3353 m oficiais contra 3309 m no relógio, dentro da tolerância de um barómetro. A divergência está só no somatório das subidas.

Não é erro de nenhum dos lados: é metodologia. O route book soma troço a troço, com arredondamentos generosos; o barómetro mede o desnível real minuto a minuto, mas com suavização que “come” microssubidas. A verdade está algures no meio; o número do relógio é o conservador.

Nota: o “Dia 12” aparece com 8020 m — 22% de todo o desnível da prova —, mas não é um dia: é a tirada final fundida (530 km, ~30 h).

03

O desempenho — as três velocidades

Ao longo dos 12 dias, o relógio registou 4742 km. A mesma prova dá três velocidades médias muito diferentes, consoante o que se mede:

O que se medeContakm/h
A rolar (só com a bike a andar)4742 ÷ 190 h25,0
A gravar (inclui paragens curtas)4742 ÷ 224 h21,2
Ponta a ponta (tempo decorrido)4742 ÷ 285 h16,6

Os ~25 km/h “a rolar” são a pace de fundo sustentada; os ~17 km/h de ponta a ponta são a prova real, com um terço do tempo passado fora da bicicleta. A repartição do tempo:

TempoHoras% da prova
A rolar19066,7%
Paragens curtas (gravadas)3512,3%
Paragens longas / descanso6021,1%

No total, foram quase 95 horas fora da bicicleta — dois dias inteiros repartidos por doze. A potência média foi de 109 W (144 W normalizada) — baixa por definição numa prova de gestão; só o Dia 1, com as pernas frescas do taper, sobe aos 142 W de média (174 W normalizada). Foi também o dia mais rápido: 29,9 km/h de média em movimento, com um troço contínuo de 30 km acima dos 40 km/h na descida para o deserto.

04

A pedalada — onde a lesão ficou registada

Os pedais medem o trabalho de cada perna em separado. E é aqui que a lesão do joelho — que a narrativa conta por dentro — aparece nos dados, em bruto e sem retórica.

No arranque, o corpo pedalava quase equilibrado (Dia 1: 52% esquerda / 48% direita). A partir daí, o equilíbrio desfez-se sempre no mesmo sentido: no Dia 7, a esquerda tinha caído para 40,8% em média. E é preciso ser claro: não é uma perna sã a compensar uma lesionada — os dois joelhos estavam em sofrimento. Era o direito que retinha capacidade de gerar força, e o corpo passou a apoiar-se no lado que ainda conseguia empurrar.

E — o mais notável — não ficou assim: no Dia 12, já perto de Annapolis, o balanço estava de volta a 53% / 47%. Uma recuperação improvável, conseguida em prova. O feedback dos pedais deu-me algo raro no meio da dor — consciência, em tempo real, do que cada perna fazia. Os dados não foram só o registo do problema; foram o espelho que ajudou a corrigi-lo.

2026-09-14T23:26:24.134457 image/svg+xml Matplotlib v3.10.9, https://matplotlib.org/ 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Dia da prova 35.0 37.5 40.0 42.5 45.0 47.5 50.0 52.5 55.0 % do trabalho — perna esquerda equilíbrio 50/50 Dia 7 · 40,8% esquerda (direita ~60%) Balanço da pedalada ao longo da RAAM
A queda até ao Dia 7 e a recuperação até à chegada — o trabalho da perna esquerda, dia a dia.

E dentro do próprio Dia 7, a média suaviza o pior. Isolando os troços de 5 km, a manhã fez a direita chegar a 60,6% do trabalho, e às 9h39 aos 63,6% — quase dois terços numa só perna. No mesmo troço, a eficácia do torque da esquerda caiu a 49,5% (contra ~71% em fresco).

2026-09-14T23:26:24.280178 image/svg+xml Matplotlib v3.10.9, https://matplotlib.org/ 09h 10h30 12h 13h30 15h 16h30 19h Dia 7 · troços de 5 km, da manhã ao fim de tarde 35 40 45 50 55 % do trabalho — perna esquerda 50/50 60/40 manhã (~60,6% direita) 09h39 — o pico 63,6% direita / 36,4% esquerda Dia 7 — o balanço da pedalada ao longo do dia (troços de 5 km)
O Dia 7 hora a hora. A zona sombreada é a manhã; o pico marcado é o troço das 9h39.
Não foi só uma sensação: na manhã do dia mais duro, com os dois joelhos em sofrimento, o corpo passou quase dois terços do trabalho para a perna que ainda conseguia empurrar.
05

A recuperação — sono e power naps

Entre etapas, a paragem total foi, em média, de ~5 horas (11 intervalos, ~56 horas no total). O relógio só detetou sono efetivo numa noite (1h18, entre o Dia 1 e o 2); nas restantes esteve fora do pulso e a carregar, ou sem amostragem suficiente. As ~56 horas existiram e foram usadas — mas em power naps fragmentados, sentado, e não em sono contínuo.

Isto liga diretamente à autocaravana: a equipa operou com duas carrinhas, não com um motorhome. Uma cama fixa, escura e sem vibração teria criado condições muito mais próximas do que o corpo (e o relógio) reconhecem como sono estruturado — com efeitos prováveis na recuperação autonómica da secção 7.

06

O corpo — peso e combustível

O meu peso normal rondava os 88 kg. Durante a prova não me pesei. As primeiras leituras pós-chegada trazem ~3% de gordura (com reservas, por ser bioimpedância num corpo a reidratar). O meu peso desceu ao mínimo de 82,9 kg e estava recuperado por volta de 13 de julho.

Quanto ao combustível: a estimativa de queima soma cerca de 9000 kcal/dia — e o corpo, em esforço, absorve no máximo umas 6000. Esse fosso é a norma no ultraciclismo desta duração. O consumo estimado de água soma ~129 litros — ~11,4 litros por dia.

07

VRC — o achado

Antes da partida, a variabilidade da frequência cardíaca estava estável e equilibrada (41–49 ms, quase todos os dias). O último registo noturno é de 13 de junho — o dia da partida. Durante a prova quase não há leituras: o relógio esteve sobretudo fora do pulso, e a VRC lê-se durante o sono.

Quando os registos retomam, a 26 de junho, acontece algo revelador: o relógio entra em modo a recalibrar — a prova quebrou de tal forma a continuidade que o Garmin teve de reaprender a baseline do zero, como se eu fosse um utilizador novo.

PeríodoVRC noturna (ms)Estado
1–13 jun (pré-corrida)41–49equilibrado
14–25 jun (corrida)—sem registo
26–28 jun30–45a recalibrar
28 jun — mínimo30o valor mais baixo de toda a série
29 jun – 8 jul33–49baixo / desequilibrado
9–15 jul44–52de volta ao equilíbrio
2026-09-14T23:26:24.448002 image/svg+xml Matplotlib v3.10.9, https://matplotlib.org/ 13 Jun 20 Jun 27 Jun 04 Jul 11 Jul 25 30 35 40 45 50 55 60 VRC noturna (ms) PROVA (sem registo) 28 jun — 30 ms (mínimo de toda a série) 9 jul — de volta ao equilíbrio (~2 semanas depois) zona equilibrada VRC — antes, durante e depois da RAAM 2023 equilibrado desequilibrado baixo a recalibrar
A VRC noturna de junho a julho de 2023. O bloco cinzento é a prova, sem registo; a cor dos pontos é o estado.

Três dias depois da meta, a VRC cai a 30 ms — o valor mais baixo de toda a série. E só volta ao equilíbrio a 9 de julho, cerca de duas semanas depois da chegada. “Sentir-se recuperado” e estar recuperado, ao nível autonómico, são coisas diferentes — e a segunda demora bem mais.

Um segundo instrumento, o mesmo diagnóstico

A FC de repouso conta a mesma história pelo lado oposto: enquanto a VRC caía, a FC de repouso subia. Dos ~44–50 bpm habituais, saltou para 62 bpm a 28 de junho — a FC mínima nesse dia foi de 59 —, exatamente o dia do fundo da VRC. Dois sinais independentes, o mesmo veredicto: três dias depois da meta o corpo estava no auge do stress, e levou ~2 semanas a assentar.

2026-09-14T23:26:24.617728 image/svg+xml Matplotlib v3.10.9, https://matplotlib.org/ 13 Jun 20 Jun 27 Jun 04 Jul 11 Jul 40 45 50 55 60 65 FC (bpm) faixa normal PROVA (sem repouso fiável) 28 jun — 62 repouso / 59 mín (o corpo no auge do stress) FC de repouso e mínima — antes, durante e depois da RAAM 2023 FC mínima (pontos)
A FC de repouso (linha) e a FC mínima (pontos ocos). Sobe quando a VRC desce, com o pico a 28 de junho.
08

Síntese

Cruzando os temas, a imagem é a de uma prova que impôs um custo fisiológico bem mais alargado do que uma leitura de peso perdido sugeriria: um episódio real de assimetria de pedalada a meio da prova, que se resolveu antes da chegada; um descanso feito de power naps não estruturados; um défice calórico crónico; e — o achado mais claro — uma recuperação autonómica que levou cerca de duas semanas a normalizar, muito depois de o corpo já parecer inteiro.

Para uma próxima

Os três pontos com maior retorno: uma autocaravana própria para estruturar o sono; um plano de combustível calibrado acima da estimativa do relógio; e o acompanhamento do HRV pós-prova como o sinal principal de quando o corpo está, de facto, pronto para voltar a treinar a sério.

09

Nota metodológica

Distância, desnível, potência, cadência, temperatura, balanço, sono, HRV e peso vêm do Garmin Connect. O desnível e o tempo oficiais vêm da organização: o tempo oficial foi de 11 dias, 18 horas e 51 minutos; o tempo decorrido, de ponta a ponta — o que a moldura desta análise usa — foi de 11 dias, 20 horas e 1 minuto. Três limitações: o relógio mede temperatura, não humidade; a bioimpedância logo após esforço extremo é pouco fiável; e não há registo de sono nem HRV durante quase toda a prova (14–25 jun).

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