Relato · Ultraciclismo / Bikepacking · 2022
BikingMan Portugal
O regresso à competição, oito meses depois — três dias pelo Algarve e Alentejo · 2–4 de maio de 2022
Depois de um começo de ano difícil de digerir e ainda a terminar a recuperação, era a primeira prova em oito meses. Atento e cheio de respeito pelos sinais do corpo, fi-la em baixa intensidade.
O primeiro dia foi a testar, a ver o que o corpo ainda se lembrava destes apertos. O segundo, a puxar um pouco mais — interrompido por um rasgo de principiante com as luzes, que ficaram sem bateria e me obrigaram a fechar o dia mais cedo. O terceiro começou mais cedo para compensar e teve de entrar pela noite, para terminar no vai-ou-racha do Caldeirão. O percurso deu-me o melhor do Algarve e do Alentejo, com um belo mix de tempo: montes, planícies, descidas a praias e linhas de água, estradas sinuosas e picadas. Chuvadas, calor, nascer e pôr do Sol, e gelo na descida final. Tudo a que tive direito.
E, como convém a um regresso, assim que facilitei, o destino cobrou logo a sua portagem. Logo na primeira manhã, a tentar ajustar o dínamo em andamento, aproximei demasiado o polegar dos raios em rotação — daqueles flats, todos aerodinâmicos, autênticas lâminas — e abri um lenho no polegar. Como estava anticoagulado, foi um sarilho para estancar o sangue; acabei a garrotar com fita isoladora, e o dedo ficou inchado e cómico o resto da prova. Bem-vindo de volta.
Quanto ao rendimento, não vale a pena andar às voltas: era uma incógnita e revelou-se uma montanha russa. Oito meses sem competir e depois dos solavancos do início do ano, o treino de rolo aumentou de forma progressiva mas sempre com restrições. Foi apenas a quarta vez que saí para a estrada em 2022 — antes, tinha feito saídas de 50, 120 e 220 quilómetros. Mala feita de véspera, set-up no próprio dia, tudo até à última: foi como pôde ser. Mas precisava que fosse, e foi. O ombro à parte — andei muito tempo só com um braço, como previa —, voltei a sentir capacidade nas pernas, a fechar cada dia com duas a três horas de reserva no tanque e, sobretudo, a entrar em forma e a melhorar ao longo dos dias. O corpo tinha respondido. Estava vivo, e podia continuar a sonhar.
Quatro meses antes, estava a ser operado. A seguir veio o susto da trombose. E ali estava eu, no Caldeirão by night, a fechar três dias de prova. Não podia ter sido melhor.