Relato · Clássicas / Monumentos · 2019

Liège–Bastogne–Liège

A mais dura das Clássicas — La Doyenne, nas Ardenas · 27 de abril de 2019

Em abril de 2019, La Doyenne — a Decana, a mais antiga das clássicas, começada em 1892. Cheguei uns dias antes e logo uma surpresa no centro de Bruxelas: um museu temporário do centenário da mítica Camisola Amarela. Delicioso.

270 km
Distância
4.134 m
D+
12h33
Tempo
6.787
kcal
133
FC méd

Na véspera da prova, já em Liège, uma surpresa enorme na fila: uns noruegueses que tinha conhecido no Norseman no verão anterior — já conto a história daqui a pouco. Depois da fila para levantar o material, compras de última hora na expo que o tempo se estava a pôr feio, e de jantar, ficou tudo pronto. A partida foi pouco depois das seis e meia e começou por uma volta lenta para sair de Liège, com muitas paragens nos semáforos e o vento de frente que já esperávamos. Uma das primeiras subidas, mais longa, ficou sem registo — o Garmin meteu baixa a meio.

E depois começou a Liège a ser a Liège: as côtes umas atrás das outras, os grupos a formarem-se e a desfazerem-se, os ciclistas clássicos, o cenário das Ardenas. Houve uma subida — a mais conhecida da prova, meio da vila, um postal, em três patamares — que foi nasty e me deu forte no joelho, mas que era demasiado linda para eu parar ou para lhe levar a mal. À medida que as horas passavam, veio mais chuva, e os grupos punham-se a trabalhar com mais afinco à medida que o vento se intensificava. A dada altura era granizo a bater nos capacetes e nos óculos, e as rajadas transformavam as gotas em agulhas geladas.

As mãos geladas doíam até a dor virar falta de sensibilidade; no abastecimento principal foi muito difícil voltar a meter as luvas. O joelho foi cobrando o seu preço da pior maneira possível: a certo ponto tirou-me em definitivo a hipótese de pedalar de pé — que tem sido, ao longo dos anos, a minha fuga para quando sentado já não dá. Sem essa válvula de escape, tive de deixar ir os companheiros. Tinha recebido recentemente uma sentença médica e não me conformava com ela. Poucas vezes aconteceu por este motivo, mas foi uma das que me emocionei. De tristeza, logo depois de raiva. Canalizada. Foi este joelho que me levou a um ortopedista de referência na medicina desportiva. Mas isso é em Lisboa. Agora estava em prova e tinha que reagir.

E reagi. Houve de tudo: uma côte bem dura, o Stockeu, onde treinava Eddy Merckx; uma descida a abrir, chuva torrencial, em que falhei uma curva à entrada de Spa e só dei por isso meio quilómetro depois — tive de voltar atrás e entrei no abastecimento todo enlameado. E, claro, a mítica Côte de La Redoute, com a malta das rulotes acampada à beira da estrada a incentivar, e os miúdos a quererem high-fives à passagem.

No último abastecimento cruzei-me com os companheiros — eu a entrar, eles a sair — e voltei a apanhá-los na descida. A esta altura, a humidade e o calor da própria transpiração era tanto que tive de parar para tirar o cap e o buff. Faltava a Roche-aux-Faucons, descampado à direita, e depois uma descida longa, um último pavé, e a chegada. Terminei com um desconforto ao nível do pior Tróia-Sagres — os duzentos quilómetros que faço desde 2010 — que alguma vez fiz — aquele em que choveu seis horas seguidas e eu era mais novo e mais tolo na escolha de equipamento e na preparação.

Comparando as clássicas que fizera até então, a Liège foi, em dureza, pior do que a Roubaix — que é muito dura, mas mais técnica. E foi mais destruidora do que a Ronde, que é extensa e tem subidas míticas, mas não este massacre contínuo de parte-pernas e de cols a polvilhar o percurso. Uma vénia a La Doyenne. Foi um prazer. E venha a Milão-Sanremo.

Liège-Bastogne-Liège — 27 de abril de 2019. 270,3 km · 4.134 m D+ · 12h33 · 10–22 °C · 6.787 kcal · FC média 133.