Relato · Clássicas / Monumentos · 2019
Il Lombardia
A Clássica das folhas mortas — o 5.º e último Monumento · 13 de outubro de 2019
O quinto e último Monumento foi o Giro di Lombardia — la classica delle foglie morte, que se corre no outono, quando as árvores da Lombardia se despem. Fi-lo uma semana depois da Eroica: dois fins de semana italianos seguidos, a fechar em grande a coleção.
A manhã nasceu fresca, e arranquei de Cantù com um buff e uns armwarmers emprestados, no meio de muita gente e com mais de dez minutos de atraso sobre a hora prevista. Cedo veio a primeira imagem que não esqueço: quatro picos a sobressair da bruma, um postal a valer só por si. Aqueci primeiro, depois parti pernas até ao Muro di Sormano, num traçado bem rolante — e aqui uma nota que só quem fez a Eroica na semana anterior entende: depois de uma prova inteira de bicicleta clássica no sterrato, a lutar com as mudanças no quadro (ou com a falta delas), voltar a uma transmissão normal e de gama larga foi um luxo.
A subida ao Sormano começa a sério depois de uma igreja à esquerda, e ataquei-a a bom ritmo. Dura, com uma paragem por pé chão de uma cortina de gente, a subida soube-me pela vida: sempre com tração, com calma para não ir ao redline, e de pé só nos metros finais para descansar as pernas. Lá no alto, o observatório astronómico do Sormano.
Uma coisa ou outra no abastecimento, o colete vestido de novo, e atirei-me à descida — longuíssima. Ao contrário do que costumo fazer, não apertei: estava tudo muito húmido e decidi não arriscar. E foi então que a paisagem fez jus ao nome da prova — as folhas caídas, a luz baixa, tudo lindíssimo, ao longo do lago de Como.
E chegámos ao coração do dia: a subida à Madonna del Ghisallo, a capela padroeira dos ciclistas, com a sua vista outra vez grandiosa. Tinha-a visitado no dia anterior, bem como ao fantástico museu de ciclismo, mesmo ali ao lado. As bicicletas dos campeões, os maillots, as fotografias, o sentimento a roçar o divino que se sente ao entrar tem que ser vivido por todos aqueles que adoram ciclismo. Sei quem teria ficado um bom bocado ali.
Mas voltemos: mesmo na reta da capela, desci duas mudanças e a corrente saltou em grande estilo mesmo na parte crítica de fazer a diferença e gastar cartuchos. Damn! Parar, meter a corrente, e abalar a puxar o máximo até ao fim. Estava feita a Madonna.
Logo depois foi abastecer, um momento, e siga para outra descida longa. Apanhei um bom grupo, em modo TGV, e cheguei a puxar dez minutos à frente. Depois foi alternar a entrada e a saída de vilas, sobre bom piso, com uma subida curta a 10% pelo meio para refrear os ânimos, e a rolar parte-pernas nos últimos vinte quilómetros. A subida final à Piazza Garibaldi, em Cantù. O quinto Monumento.