Relato · Gravel / Vintage · 2019
Eroica Chianti
Strade bianche no estado mais puro — Chianti, à moda antiga · 6 de outubro de 2019
Um mundo à parte: à moda antiga, de bicicleta clássica e mudanças no quadro, 205 quilómetros de strade bianche pela Toscana — e o meu íman para o azar mecânico em cheio.
Apesar de não estar classificado como Monumento (para isso há o chamado 6.º Monumento, a Strade Bianche, em março), houve uma outra prova que não posso deixar de partilhar. Foi um mundo à parte: a Eroica, em Chianti, em outubro de 2019. A prova é especial: veste-se à época e as bicicletas só clássicas, com as mudanças no quadro. Levei bigode, comprei uns calções de lã e, para o resto do equipamento, abri as gavetas da casa de Évora e levei material dos anos setenta: camisola de lã com as cores nacionais, luvas e sapatos de pele — com o encaixe de metal pregado na sola. Bicicleta Torpado, pneu tubular e cola para o caso de furos — e houve mais furos do que pneus que eu levava. Duzentos e cinco quilómetros de sterrato, por entre vinhas e adegas, com vinho, sopa de farro, panini e parmesão nos abastecimentos: a Toscana no seu máximo esplendor. E, claro, o meu íman para o azar mecânico: aos quinze quilómetros, arranca-se totalmente o pedal esquerdo com a rosca destruída e veio na mão até encontrar solução. Muitos, muitos quilómetros a pedalar só com uma perna e a outra literalmente a balouçar. Chegado ao ponto de apoio: não havia ferramenta para a operação. Discute-se. Mais quilómetros. Faz-se uma parte do traçado da prova em sentido contrário para encontrar o outro posto mecânico mais próximo. Espera-se pelo mecânico, uma hora. Resolve-se a martelo depois de deixar claro que eu não tinha vindo de Portugal para ficar de fora por um tema mecânico. E depois o cut-off a cinco minutos e a apertar a cada checkpoint: furas, recuperas, furas de novo, esperas, desesperas.
Veio o Henrik Sandberg, dinamarquês, já fora de prova mas com um tubular extra. Tinha sido convencido pelos amigos a fazer, pela primeira vez, uma prova daquela distância — e os amigos, à última da hora, não apareceram. Estava ali sozinho por causa deles, e foi ele quem me salvou a mim. Disse-lhe: “Empresta-mo, arranca que eu já te apanho e dou roda até ao checkpoint. Vamos conseguir!”. Troquei o pneu, coração a mil, apertei até ao Henrik, dei o que tinha, ultrapassámos o carro-vassoura e chegámos poucos minutos dentro do tempo ao checkpoint seguinte. Caiu a noite e eu sem luz, sem roupa adequada, sem energia. Disse ao Henrik para seguir e parei na berma.
Uma alma italiana — Michele D’Aleo — a voltar de carro da prova mais curta, viu-me parado sem luzes, e estacionou, conversámos e deu-me um gel. Fiquei ali até passar um casal de americanos que estava a terminar a prova mais curta mas que tinha, pasme-se, luzes extra! Vim com eles até perto do fim, agradeci, segui e cheguei. Bem amassado, mas cheguei. Não podia pedir mais.
Se há uma prova que ensaiou, anos antes, alguns momentos de estar contra o tempo próximos do que viria a estar na RAAM — a avaria, a teimosia, o corte de tempo, o chegar contra tudo —, foi esta.