Relato · Triatlo / Ironman · 2016
Ironman Barcelona
O primeiro Ironman — e a primeira maratona · Calella, 2 de outubro de 2016
O meu primeiro triatlo longo — e a minha primeira maratona. Um dia de nervos, um guiador de carbono rachado logo à saída, e uma vontade maior do que o cansaço, de Calella a Barcelona.
De regresso a Lisboa, juntei tudo e fiz um único treino de corrida com uma alma especial que me bateu à porta e arrancou para a rua: o meu amigo Ángel. Diz-se que estes aparecem raramente e em momentos especiais, e não posso senão confirmá-lo. A corrida que fizemos perto do aeroporto ajudou-me mais do que consigo descrever.
Nos dias seguintes, perdi bastante peso e não dormi bem, mas o dia chegou e parti para Barcelona com a Andreia, minha colega na empresa e que viria a ser muito mais que companheira de viagem.
Nervos, preparativos de última hora, verificações de material e lidar emocionalmente com muitos flashes que iam polvilhando os dias. Foi intenso e só terminaria com o início da prova. Tive que aprender a esperar por esse momento, que passou a ser mágico. Na praia de Calella encontrei o Luís Nunes, meu antigo colega de trabalho, já então uma referência na corrida, e que viria a tornar-se também um grande campeão no triatlo.
Passados os nervos com o tiro de partida, menos de cem metros dentro de água e já vinham caiaques de volta com atletas que desistiam. É fácil entrar em pânico e hiperventilar na partida da natação, e mais ainda antes das ondas de partida mais organizadas de hoje em dia. O percurso eram uns duzentos metros a direito, depois curva à direita, uma reta longa paralela à praia, inversão, outra reta longa de regresso, e saída.
O Mediterrâneo é calmo, mas aquelas ondas laterais podem jogar contra nós quando se é principiante. Sempre que respirava do lado do mar, havia a hipótese de engolir água. Eu ia ajustando o estilo — a respirar mais para um lado, um pouco enjoado — quando passei por dois nadadores muito próximos um do outro. Só mais tarde percebi por inteiro, já no segmento da bicicleta (que era um tandem) e na corrida (com uma ligação entre os dois): um deles era cego. Pensa nisto. Eu a esforçar-me para não beber água, e estes seres humanos extraordinários a colaborar para que um deles enfrentasse as mesmas condições, só que sem visão.
É uma das coisas que constantemente trago dos desafios, e que me faz voltar para mais: estas lições de humildade, de redefinir a escala do que não só não é impossível, mas demonstradamente fazível.
Saí da água como pude e aliviado, o primeiro segmento e aquele que mais temia estava no saco. Na bicicleta escolhi não usar fato de triatlo, mas uns calções específicos de ciclismo e uma camisola Rapha branca com uma braçadeira preta — a série original de 2004 — que ele me tinha dado como presente. Ao sair do parque das bicicletas, tropecei e caí com a bicicleta na rampa de saída, aparentemente um toque sem importância. Não foi imediatamente visível, mas rachei o guiador de carbono, que ficou a partir dali fragilizado sem que eu o soubesse.
Na bicicleta — um percurso plano e aborrecido ao longo da costa (ainda que cénico, com um farol bonito), com uma única subida só para quebrar o traçado e meter uns metros de altimetria — passei aquelas horas a recordar sobretudo memórias de infância juntos: as idas ao Alto de São Bento dar pontapés numa bola, os karts, o pôr-do-sol — por nós chamado Gema d’Ovo — a conversa de pai para filho depois de uma briga com um colega na escola, as tardes a trabalhar juntos na empresa de computadores — muitas horas a aprender e a “dar ao parafuso”, os elogios contidos depois de boas notas. E de repente uns chocalhos e gritos do público a incitar — “Acorda João, vamos embora, carrega!”.
As horas iam passando e aos cento e dez quilómetros, ao puxar com mais força pelo guiador numa subida, este separou-se notoriamente na curva do lado direito, antes da manete dos travões e mudanças. Preso só pela fita, deixei de conseguir guiar a bicicleta normalmente. Segurei a mão direita junto ao centro, adaptei e foquei-me para nos trazer até casa.
A maratona funcionou até meio, alternou com caminhada rápida, com pouca nutrição a entrar, e reduziu-se a andar a passo durante uns minutos. A certa altura tive mesmo de parar e alongar a barriga da perna na relva durante uns minutos. Não conseguia andar. Estava exausto, tanque vazio, as pernas não colaboravam. Parecia um beco sem saída, mas eu sabia que tinha que terminar. Só faltava perceber como. Tivemos uns diálogos — bora, Mig. Voltei a correr com ritmo a uns três quilómetros do fim.
No último quilómetro, uma reta através do jardim mesmo antes de uma curva para a meta, fui para outro sítio. Corria no vácuo: as pernas mexiam-se sem fazer força, só ouvia o som e sentia o ritmo das passadas.
Ouvi à minha volta: “Yeah! That’s the way to do it! Finish strong!”
Curva fechada à esquerda e estava lá. A meta daquela que era também a minha primeira maratona, dentro do meu primeiro triatlo longo. Não ouvi da conhecida voz do speaker as palavras que a maioria anseia ao embarcar numa jornada destas — “Joao, you are an Ironman.” Mas senti forte o momento, apontei para o céu e dei finalmente ao corpo a ordem de parar. Tinha acabado. Tinha-me esvaziado, espremido cada gota de energia, mesmo quando acreditava que já não havia mais. Naquele dia especial, transcendi-me de várias formas e tive a melhor companhia.