Relato · Gravel / Bikepacking · 2022
Basajaun
Cinco dias de gravel em autonomia pelo País Basco e Navarra · julho–agosto de 2022 · com Bruno Inça
Apenas vinte dias depois do Ironman de Vitória, e a partir da mesma Plaza de España onde o tinha terminado, parti para o Basajaun: cerca de 800 quilómetros de gravel em autonomia, cinco dias pelo melhor do País Basco e de Navarra.
Dia 1. O dia de arranque foi à maneira. Como estava a ser fácil de mais, o epic mode ligou-se logo aos trinta quilómetros: num single track em modo hike-a-bike (ou seja, a pé e com ela à mão), senti um pisar esquisito, olhei para baixo e tinha a sola do sapato literalmente presa por um fio. Meti-a no bolso, tentei montar e pedalar só com a outra e, poucos minutos depois, dei comigo a pisar os pedais com a meia-sola — uma daquelas massagens plantares desnecessárias. Muita estrada e muito triatlo: os pobres Scott de BTT ficaram esquecidos e já tinham tido o seu dia. Era domingo e com quase tudo fechado, tivemos que encontrar solução fora de rota. Faltavam só cento e vinte quilómetros até à Decathlon de Pamplona, ainda com umas quantas descidas cheias de calhau pela frente. Parece que tenho um íman para estes números. Entrei em modo sofrer até ao fim, e valeu o Inça, que me lembrou de montar as solas nos pedais e pedalar como pudesse em cima daquilo. Descidas com respeitinho, uns escorregões aqui e ali, mas a coisa deu-se. Passo de caracol e jogo de paciência o dia quase todo, mais o desvio de 20 quilómetros à Decathlon, onde reformei os Scott e trouxe os únicos 46 que não apertavam: uns Giro (bem giros – desculpem). Paisagens lindíssimas, muito calhau, e a full-suspension com pneus 38 mm a dar conta do recado. Não valia a pena correr demais atrás do prejuízo: fechámos a loja às 23h num canteiro com árvore por teto, junto a um edifício antigo, para acordar cedo e recuperar.
Dia 2. Saída pela fresca, logo aquecida por uma subida valente a pedir menos roupa. Um belo cruzamento com o Camiño e, já em altitude, montes de animais adaptados ao contexto — cavalos extramusculados, cabras e vacas por todo o lado. Depois, muita bicicleta à mão: alguém teve a ideia genial de andarmos mais de uma hora por silvados envoltos em neblina, com uma progressão baixíssima para quem está habituado à estrada, sem a distância nem a altitude deixarem prever quanto tempo aquilo levaria. É o terreno escolhido que manda. Descida à represa de Irabia, a subida e o topo de Abodi, e dezenas de SMS a dar-me boas-vindas a França ao longo das horas. Fim de dia outra vez à comando — desta vez o átrio de uma igreja em Zuazu, para sentir menos a cacimba. Sobre banho, nem perguntem; mas lavei os dentes.
Dia 3. Saída um pouco mais cedo, a tempo de uma valente esfrega nas pernas para ver o nascer do Sol junto a um parque eólico. Descida incrível e boa rolagem até um pequeno desfiladeiro à Indiana Jones, que haveria de voltar ao cenário. Subida rija a Gallipienzo e Ujué, sempre pela gravilha e pelo calhau — pelo alcatrão era fácil de mais. Era meio da manhã e já dava para desidratar, mas ainda sem noção do prato principal que seriam as Bardenas Reales. Quando saímos do último café antes de lá chegar, em Mélida, a dona perguntou apenas se éramos tontos. Talvez um pouco.
Três bidões mais uma bexiga de trail, e quase não chegou.
A paisagem era surreal, parecia outro planeta. Calor muito envolvente, uma subida longa de rachar a mais de 14% naquela frigideira. Acabei a ceder água e a dar apoio a um golpe de calor sério de outro rider — nada fácil de assistir. Saída a correr à procura de mais água, e um fim de tarde junto a canais, rematado com nova subida a um parque eólico. Tal como no NorthCape, ao fim de dois dias ao relento era altura de aburguesar. E tentámos. Mas o único quarto disponível num raio de cinquenta quilómetros era demasiado bom para ser verdade — em cinco minutos a dona ligou a cancelar. À meia-noite, um volte-face: as traseiras da igreja estavam ventosas e mal-frequentadas e, já com o arraial montado, uma última tentativa resultou — arruma tudo e outra vez nas bicicletas: a primeira noite em hotel era a quinze minutos. E sim! Banho!
Dia 4. De manhã, pela primeira vez, muitas queixas do corpo. Uma série de ciclovias levou-nos a desfiladeiros e a subidas quentes e secas em série. A coisa ainda esteve mal parada, um bom bocado sem água, mas as terrinhas foram safando com fontes e cafés. Alguns portos já a 1.400 m, sempre a descer e a subir de novo, com o motor a acusar as Bardenas da véspera. Uma ajuda a remendar um furo na descida, e um bocadillo de ovo com chouriço de chorar por mais. Gelados em cada paragem e juras de amor a fontes fresquinhas. Para fechar, um preview da besta que atacaríamos na madrugada seguinte — e uma vila em festa como só ali. O dia finou, mas só depois de mais quinze quilómetros de subida noturnos até ao Mosteiro de Valvanera.
Dia 5. Arranque a frio a partir do mosteiro, numa inclinação em que qualquer paragem já não deixava voltar a arrancar. Mais de doze quilómetros a subir até aos 1.990 m, com direito a trovoada e capas de chuva a saltar ainda de noite, e mais dois furos até lá acima — uma ascensão memorável, a subida-rainha da prova. Depois foram quase cinquenta quilómetros a descer, um conjunto de trilhos técnicos e muito hike-a-bike até à exaustão, sobretudo nas horas de calor. Mas os quilómetros a passar em direção ao final faziam tudo valer a pena. A entrada de volta a Vitória foi emocionante, ainda sem caber na cabeça tudo o que se tinha passado naqueles cinco dias.
O Basajaun foi a prova de que o corpo tinha voltado a um sítio de onde podia sonhar com a RAAM — não só em teoria, mas em cinco dias seguidos de gravel, calor e autonomia, ao lado de quem já partilhara comigo o Portugal Divide e o NorthCape.