Relato · Ultraciclismo · 2021

Race Across Germany

800 km non-stop, de Aachen a Görlitz — a qualificação para a RAAM · 10 de setembro de 2021

No início do ano tinha listado algumas provas de ultradistância e, depois de a Race Around Denmark ter sido cancelada, deixara um pedido de informação ao organizador — Dieter Göpfert — sobre a Race Across Germany. Costuma realizar-se em maio, mas tinha sido empurrada para setembro por causa da pandemia. Aliás, durante semanas pareceu que nem se realizaria: num ano de Covid, foi preciso garantir todos os procedimentos sanitários, e a confirmação final só chegou a pouco mais de duas semanas antes da partida.

801 km
Distância
6.635 m
D+
37h03
Non-stop
38h
Cut-off
57 min
Margem

Estávamos em meados de agosto. Eu chegara a Portugal de alma cheia e corpo bem seco — 3% de gordura, para ser preciso. Tinha perdido oito quilos entre a Itália e o Cabo Norte. Vinha com a ideia de encarar a sério uma ida à RAAM, mas sem prova calendarizada e sem plano nenhum.

A banhos no Algarve, a tentar por todos os meios recuperar massa, recebo o email do organizador: se conseguisse juntar mais de dez malucos, a prova fazia-se em setembro. Dali a três semanas.

Quando o universo nos dá um sinal destes — e toda a gente com quem partilhamos a coincidência revira os olhos —, só há um caminho possível. Pegar no telefone e tornar real o convite preliminar que tinha lançado pouco depois do Portugal Divide. Falei com dois grandes amigos para fazerem comigo algo que nenhum de nós jamais fizera: eu, pedalar 800 quilómetros seguidos; eles, revezarem-se na condução de uma carrinha de apoio que eu ainda teria de alugar. Foi da cadeira do dentista — tive um azar a meio do caminho para o Cabo Norte — que fechei com o João Miguel Gonçalves, amigo de infância do tempo de Évora. E, numa volta rápida à cabeça, o mesmo com o Ricardo Elvas, meu antigo colega de trabalho, então a viver na Alemanha. Ah, e decidimos ir todos de bigode à Tuga. Porque sim.

Tratar da logística, treinar o possível, rever as regras — e três semanas depois lá fui eu e o João Miguel, dia 9 de setembro, para Aachen (o curioso Aquisgrão, na nossa língua), encostada à fronteira com a Bélgica e a Holanda, de onde partiríamos. A RAG tem duas variantes: Norte–Sul e Oeste–Este. A primeira, mais longa, tem mais tempo para distribuir o esforço. A segunda, que escolhi, mais curta mas com menos margem para qualquer azar: tinha um cut-off de 38 horas.

E já não era só aquela travessia. Era indisfarçável: por mais voltas que desse, já não ia só fazer uma prova. Ia buscar uma classificação para aquela que é tida como a prova de ultraciclismo mais dura do mundo.

Na quinta-feira anterior, fomos ao Aachener Brauhaus levantar os documentos: dorsal, autocolantes de segurança para o carro e a bicicleta, e o tracker — o pequeno aparelho que daria a nossa posição online e que, dali em diante, seria o nosso testemunho de prova. Para o levantamento, na quinta-feira à tarde, era preciso cumprir a regra dos “três G” que então vigorava na Alemanha: apresentar teste negativo, prova de recuperação, ou vacinação. Tratámos do supermercado, jantámos no McDonald’s uma primeira vez e fomos descansar.

No dia 10 de setembro, às oito e meia da manhã, arranquei de uma praça em Aachen — só uns quilómetros à frente é que haveria o encontro com o carro. Seriam dois dias de prova, 10 e 11, com o cut-off a apertar já no segundo. Logo na descida houve um engano de caminho — nada de grave: voltar para trás, e eu e o outro rider que saíra comigo retomámos a rota. Lembro-me de chegar ao alcatrão e de o ver arrancar com grande convicção. Não era bem o meu plano — era uma prova longa, para fazer com cabeça e gestão — mas cada um sabe de si.

Até Bona, a regra era pedalar sozinho — o carro de apoio por perto, mas em leap-frog, sem seguir atrás. Já o traçado oficial daquele primeiro troço, até Bona, tinha sido alterado pela organização por causa das cheias e inundações que tinham assolado a região poucas semanas antes.Viadutos, pequenas colinas cobertas de verde, e a palavra de ordem era uma só: rolar.

E foi ao atravessar o Reno que o pack ficou completo. Um par de horas depois da partida, junto a uma ponte, o João Miguel encostou a carrinha e abriu a porta. O Ricardo, que apanhara avião desde Berlim, apresentou-se — e arrancaram atrás de mim.

Depois de Bona, houve um ponto em que os carros tiveram de seguir um atalho próprio e eu fiquei temporariamente sozinho. Parei numa bomba de gasolina à espera de os reencontrar, abasteci e segui. Não faltaria muito e já estávamos os três plenamente no interior do país, que nunca tem uma montanha a sério mas também nunca dá tréguas — sobe e desce sem parar, e é essa soma que faz o estrago.

O ombro ficara massacrado do NorthCape e, com a operação outra vez adiada, tinha de ser gerido proativamente — a bem, sempre que possível, e enfrentado de frente quando saía dos limites. Amor-ódio.

Ao fim do dia, caiu a noite e a chuva, e o frio começou a fazer mossa. Mas o espírito ia em alta.

A primeira grande referência chamava-se Bad Hersfeld, ao quilómetro 339: uma das time stations — as estações de tempo da prova, e o tal McDonald’s que o guia elegera como ponto de encontro de culto da RAG. Não é bonito, mas é assim: naquelas provas, um McDonald’s aberto a horas impossíveis vale mais do que uma paisagem. Passar por ali era o primeiro sinal concreto de que o plano estava a resultar — ainda não era metade do caminho, mas já era muito mais do que uma intenção.

Na bomba de gasolina estiquei as coxas, comi um hambúrguer e falámos com o Tiago Fernandes, que seguia a prova à distância.

Numa subida mais longa, eu a pedalar de pé, lembro-me de uma chamada para o António “Tó” Coutinho, meu amigo desde o 8.º ano e hoje oficial do Exército — o nosso GI Joe —, que tinha feito uma playlist motivacional para o efeito. E como ela tocava bem: vidro aberto, volume no máximo, a marcar o ritmo.

Paragem para tentar dormir, já a meio da noite. Não fui capaz de acordar o Ricardo, que dormia atrás, e tentei, em vão, fazer o power nap por duas vezes no lugar do passageiro. Todo torto, meio na vertical, apoiado na consola central — se passei pelas brasas, foi muito ao de leve. Foi com grande frustração, e meio zonzo, que arranquei para os quilómetros que faltavam.

Isto já vinha de trás. Umas horas antes, à passagem da vigésima segunda hora e com uma hora de sono mal dormida, comecei a fazer um esse na estrada. Do carro atrás, o João Miguel e o Ricardo viram-no ao mesmo tempo: “Pára tudo e encosta!”

Tremia de frio, com o estômago a arder e enjoado. Puseram-me dentro do carro e cobriram-me com uma manta térmica, enquanto o João Miguel revirava o material médico à procura de qualquer coisa que me pusesse outra vez na bicicleta. Foi então que comecei a falar do Benfica — da história do clube, de táticas, quatro-quatro-dois isto e aquilo. Ele, sportinguista ferrenho, ainda pensou que fosse provocação. Era só o cérebro a ir dando de si.

Recuperei a cor e a lucidez em poucos minutos. Para me deixarem seguir, puseram uma condição: se acontecesse outra vez, acabava ali e chamava-se uma ambulância. Disse que estava bem — com alguma relutância, é certo, mas sem margem para negociar. Eles estavam a fazer o que lhes competia, e visto de fora era o que fazia sentido.

Nova paragem, já com o dia a romper. Aqui houve um momento de verdade. Carro encostado à berma; frustrado por não conseguir dormir e zonzo de sono, fiz menção de pegar na bicicleta e arrancar. Eu e o João Miguel tivemos um tête-à-tête — ele, com o susto ainda fresco, quase a proibir-me de seguir; eu em modo limpa-neves, a saber e a sentir que não havia mais tempo para parar, que ia ser à tira. A própria organização avisava para isto mesmo no guia: se o ciclista começa a serpentear na estrada ou a dar respostas confusas, stop immediately. O João Miguel estava instintivamente, nem mais nem menos, a seguir o manual à risca. E eu estava bem mal-disposto. Mas o impasse não podia durar. Uns minutos de negociação e uma ida aos arbustos depois, lá os convenci a arrancar — com calma, e a ir monitorizando a situação.

Mas o dia desperta o corpo e logo, descidas a voar.

Num cruzamento, as janelas da van parada atrás de mim abrem-se e, alto e bom som: o Hino do Sport Lisboa e Benfica! Coisa linda. O Ricardo a rir-se que nem um perdido, o João Miguel a sofrer e a ver testados os limites da amizade, e eu a cantar a plenos pulmões, a ganhar um boost de motivação e boa-disposição.

Parei na berma — nova minidiscussão sobre dormir uma hora. Mas não: não tinha folga. Tinha de seguir.

E não tinha mesmo. A segunda time station apareceu em Wilsdruff, quilómetro 664. Dali para a frente sobravam pouco mais de cento e trinta quilómetros, o que numa manhã fresca seria uma saída de treino e ali, naquele estado, era uma pergunta em aberto. Eu tinha o cut-off a respirar na nuca e uma margem medida em minutos, não em horas. Foi a partir de Wilsdruff que a prova deixou de ser uma travessia e passou a ser uma contagem decrescente.

Uma subida a 10% ao fim da tarde saiu-me do pelo. Ia tudo menos fresco, e a música não podia ser mais adequada: “quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga”… o Variações é que sabia.

Pouco depois, em perímetro urbano, uma descida tramada, em calçada, inclinada e de curvas fechadas, perigosa por estar molhada, onde me tive de aplicar a sério para não ir ao chão.

Passámos, já ao fim da tarde, por uma cidade muito bonita, de edifícios grandiosos — lembro-me em particular de umas torres e de uma ponte. Seria Görlitz, a meta habitual. Mas este ano não foi possível e rumava ao Lago Berzdorf, na “Blue Lagoon” (Campingpark Berzdorfer See).

Corte de estrada. Tivemos de voltar para trás já depois de insistir e tentar passar. O tempo escasseava, os nervos iam ao rubro dentro do carro — mas era preciso sacudir a pressão e acreditar.

Era o momento da verdade: tinha ou não tinha o que era preciso. Pedi ajuda e tive-a. Foi com quatro pernas a puxar que arranquei nos últimos quilómetros e, depois de uma zona de lago com um acesso longo e mal iluminado — sempre no receio de um erro de rota, descemos para a reta final. Ao fundo, brilhava a lanterna do Dieter. De punho primeiro cerrado e depois a apontar lá para cima, cortei a meta.

Estava feito. Estava qualificado para a RAAM, com cinquenta e sete minutos de folga sobre as 38 horas do cut-off.

Race Across Germany (Aachen → Berzdorf, Görlitz), Oeste–Este — 10 de setembro de 2021. 801 km · 6.635 m D+ · 37h03m non-stop.