Continuação de Portugal Divide 2021 – Parte I: de Cevide à Torre
Quarto cheio de luz, saio da cama a mancar e aproveito o pequeno almoço na Pousada da Juventude, não sem repetir, antes da descida para a Covilhã. O romper do dia é quase sempre uma melhor face da moeda com que nos deitámos.
Depois da descida sinuosa e a rolar em pleno já depois de Tortosendo sentia bem o encurtamento do aquiles e acabou por ser uma dureza fora do normal no arranque.
Atravessado o rio em Barco e depois de passar em Silvares, pelas 2h de estrada uma série de subidas longas com dificuldade “médio mais” e o calor a apertar levaram-me ao Miradouro de Dornelas, onde parei uns minutos a apreciar o Zêzere. Não é uma zona que conheça bem e fiquei com ideias de voltar cheio de tempo. A inércia consegue ser muito convidativa mas já tinha gasto os meus créditos todos, o dia era de rolar ou rolar. Hoje não iam ficar muitas fotos para o registo.
Ficou-me só na memória um “V” bastante marcado em Porto de Vacas, travões de aro no limite a descer comigo que sou “levezinho” e bike carregada, direto para um subidão em condições, que ainda hei-de repetir. Logo a seguir o avistamento de uma Aldeia de Xisto renovou-me a vontade de voltar com mais calma.
Seguiu-se Janeiro de Baixo, onde um casal simpático deu umas dicas sobre o caminho e, em particular, de uma estrada que estava cortada porque tinha havido derrocadas. Atendendo à alternativa resolvi arriscar e, se não me tivessem dito, não reparava em nada.
Caminho lindo ao longo do rio Zêzere, parede xistosa ao lado até à ponte de Cambas. E foi foi precisamente num manhoso cotovelo à saída de Cambas que encontrei a subida do dia.
Oleiros, outra paragem num café, um par de sandes no bucho e mais num saco de papel. “Com manteiga, menino? Claro! Às carradas! Obrigado!”
E já com o motor a cozer havia de parar novamente na Sertã para cola, café e gelados (não necessariamente por essa ordem).
Torna a diligência a parar, agora em Vila de Rei, já com o forno bem ligado e novo reabastecimento líquido.
Última subida, autêntica rampa antes do marco do centro geodésico que custou para burro carregado como ia, mas deu um gozo enorme o qual, como quase tudo, aumenta ainda mais com o fim à vista… e, sobretudo, depois de feita. Ainda limpei uma acelera pelo caminho 🙂
Ali deixei-me estar uns 20 a apreciar a tribo do Portugal de Lés a Lés, que viria e encontrar no dia seguinte. Aliás, é deles uma das minhas fotos preferidas do Divide.
À saída de Vila de Rei tomei a M2, novamente dica do António, e foi um regalo partilhado com a malta do Lés-a-Lés que ia passando e dando incentivo.
Os kilómetros iam passando no braseiro, até paragem para água em Carvalhal onde, morto de sede, entrei num quintal daqueles sinceros, com cactos e rebordos dos canteiros em cimento artesanal e um lavatório embutido na parede caiada. A dona, compreensivelmente desconfiada, a ver um gajo vestido de forma estranha e sapatos barulhentos, clac, clac, mas cheia de vontade de ajudar e ser prestável. Foi, e arrancámos um sorriso um ao outro.
O vento ia sendo boa ou má influência dependendo da direção dos cruzamentos, mas encaminhava-me rapidamente para a zona de Constância, onde atravessei a ponte mesmo antes de cortar à direita e seguir em direção à Chamusca.
Depois de mais um café na Carregueira, paragem rápida apenas já nos campos do Ribatejo, Sol já de lado. Um fim da tarde amarelado. Senti que algo mudou. Comecei a entrar em forma, o corpo habituou-se, os quilómetros passavam mais rápido e estava a desfrutar das cores, dos cheiros dos campos, das pequenas simpatias das pessoas.
E foi aqui que, embora eu não tivesse qualquer right to play nesse tabuleiro, me passou pela cabeça o record, naquele momento* nas mãos do grande João Manuel Pinto. Dá? Não dá? É importante? Não é. Mas era fixe. E era algo a que apontar.
* entretanto já eclipsado pelo fantástico ride do Luís Pereira.
Aqui havia de encontrar terreno plano até final da etapa e dediquei-me a desfrutar da posição, a alongar pescoço, pernas, costas, a aguentar o máximo possível nos intervalos em que ia nas barras e tentar esticar o tendão.
Junto a Alpiarça apareceu o Gonçalo Carta, meu companheiro do ABC 2018 para fazer companhia durante uns kms e que bom foi vê-lo! Paragem em Santarém para mais um refresco e, como já se vinha a fazer sentir ao longo do dia, tinha o aquiles direito um trambolho a ponto de se ver por fora da meia, mancando comicamente sem qualquer chance de apelo. Vale de Santarém com o dia a fechar, o Gonçalo foi até onde pôde e após despedida fez-se ao caminho de casa.
Ida às boxes no Cartaxo – Tony das Bifanas – paragem maior porque ia começar a noite e aproveitei para trocar de roupa e comer a última refeição quente do dia. Atestei bem.
Lá vim pela Azambuja e Carregado, que aquela hora já noite cerrada e com o tipo de trânsito de pesados deixa de ser confortável, ainda com umas razias valentes.
Cheguei por fim a Vila Franca, que me é mais familiar, e N10 até Alverca. Parei de novo para me orientar e encontrar alojamento, tendo apontado agulhas para a Casa Portuguesa, com reserva por telefone.
A noite estava particularmente escura e, ao passar no MARL, levei a razia de uma vida, vinda de uma via de acesso para a principal, em excesso absurdo de velocidade e fiquei uns minutos a pensar naquilo. Não calhou. Porra, que foi rente.
Finalmente Loures, liguei para me darem entrada e aterrei depois de um duche, com o despertador marcado para cedo, mas sem exageros. O objetivo era ganhar experiência em provas deste género e com o amadorismo da preparação e as peripécias não dava para grandes ambições, mas a verdade é que a referência de tempo era mesmo a dos 4 dias. Ainda era possível… foi uma tough call, mas preferi dormir 6h, sobretudo ainda na ressaca do que se tinha passado junto ao MARL.
Dia 3: 294K, 12h21 de pedal, 3588 D+, @strava
O despertador pôs-me os pés no chão frio e rapidamente me equipei para voltar ao trabalho. Desculpas para ficar mais um bocado são mato denso e, a mancar que nem um pirata lá fiz caminho até à rua e arranquei para a Serra de Loures, que parece que não se dá por ela à vista mas que está lá, e bem, nas pernas.
Nem sonhos nem pesadelos, naquela linda hora da manhã, a suar por baixo das capas de frio húmido e com grande dificuldade em fazer força no pé direito, aparecem uma série de cães nas rampas de cimento em que quase não se consegue sair do sítio, muito menos fugir. Fiz de louco como habitualmente, mas há sempre ali um “e se?”… nunca se sabe e já me preparava para sacar a bomba do apoio quando foram desistindo de chatear as pessoas àquela hora da manhã.
Fiz caminho por Caneças e Algueirão, longo e meio zonzo, a fase de chegada a Sintra foi particularmente estranha, cérebro em deep-freeze, já nada fazia sentido.
A estupidez do dia veio na forma de uma decisão de deixar a estrada principal que vai para a Azóia e seguir o anormal do traçado do Komoot, como se fosse a primeira vez que isso acontecesse. A mera noção de um atalho era bem recebida por alguém (que não eu) mas que estava aos comandos da criatura que ia montada na bike. E, lá por isso, rapidamente as ruas estreitas de calçada inclinada se tornaram em caminhos de lavadeiras onde tive que apear e arrastar-me por ali acima, mais a máquina carregada, enquanto me agarrava a um tubo de metal ferrugento com fixações frágeis à parede e tentava ganhar a tração (que não teria nem com uns ténis de corrida) com uns sapatos de ciclismo com sola de carbono. 15 metros a ofegar. Escorrega, joelho ao chão, continua, levanta-te, descer já não desces só se for para cair, escorrega, firma-te, levanta-te, bike a descair, vai um metro, ancora, agarra ao corrimão, parafuso sai mais um pouco da parede, larga o corrimão, porra, como é que te metes numa parvoíce destas, lá vai a roda de lado, agarra-a senão vai por aí abaixo… pronto, corrimão solto!!! Os dois no chão abraçados e rebolar, eu e ela, a calçada molhada, o joelho aberto e mais uma volta, joelho a travar no chão, já parou, pronto.
Desço tudo? Impossível. Anda, sobe os 10 metros que faltam, sobe de gatas, logo alinhas o guiador, porra que bati feio com o joelho.
Saí dali a espumar da boca, chegada de raiva ao Cabo da Roca. Nevoeiro denso, vá, anda lá o checkpoint é logo ali. Levei a bike até onde pude, sentia que não conseguia andar a pé mais que um par de metros e estava coberto de razão. Duas ou três fotos, aproveitar o boost que dá chegar ao checkpoint.
Extremo Oeste feito, resta subir até à estrada principal, onde encontrei um regresso com uma mudança brutal de cenário – vento, céu fechado e nevoeiro para… vento e Sol – curva dos motards/Ulgueira na pendente mas… com o vento a parar-me. Estava a descer e tinha que pedalar para avançar, surreal.
Que precisado estava daquele café na Malveira e aperta contigo, tinha visto o horário e tinha barco às 9 e depois só às 11h. Ainda queria tentar mas provavelmente por pouco já não ia dar, saiu-me cara a palhaçada na calçada.
O Inça já tinha resolvido o tema da roda e tinha vindo ter à Marginal para fazer companhia na última tirada. Fist bumps, o resumo das histórias de cada um nas últimas horas e lá vão eles rumo ao Cais do Sodré. Pelo caminho, como o Bruno já estava fora de prova, alinhei logo que não haveria de ter roda nem margem para equívocos com o espírito da coisa (sou, sem arrependimento, um bocado chato com estas coisas).
Depois de comprar os bilhetes, e como havia tempo suficiente, teve lugar um raide ao Pingo Doce do outro lado da estação que salvou o fim da manhã.
Barco para o Montijo para os únicos minutos em que estava a descansar mas em (relativa) progressão. Tinha optado por encontrar uma rota na N5 e, depois de uma ida rápida ao WC na estação do ferry, lá seguimos pelas estradas planas (mas sem berma) até Águas de Moura onde o calor já apertava e houve nova paragem para refill.
Seguiu-se o IC1, segmento perigoso e com uma boa extensão de piso em mau estado (berma e via) que já tinha reconhecido umas semanas antes. Passámos por Alcácer, o calor apertava, as vendas de fruta pareciam oasis e o fusível já não ia em grandes condições depois Grândola, onde comecei a falar sozinho. Ouvia-me falar, o Inça olhava com cara estranha e não sei se o tema era o cubo de Rubik ou outra coisa qualquer mas claramente estive alguns bons minutos já para lá de Bagdad.
Paragem para café em Aljustrel, arrefecimento da mona, e depois de uma curva à direita em direção à saída e sem qualquer sem sinalização, uma obra tinha deixado a estrada rasgada de lado a lado sem paralelos e com desnível para a camada de brita e areia.
Não consegui evitar e dei o malho que não dava há muitos, muitos anos. Aterrei primeiro com o joelho e, depois de rodar no ar, com o material todo em cima do ombro. A primeira coisa que me lembro, atordoado, foi de ouvir o alarme da bike, o Inça a gritar e eu a levar a mão direita ao chão, o braço a ceder e aterrar de novo.
Vinham logo atrás os motards do Portugal de Lés-a-Lés, que puseram logo um capacete de aviso e um deles, que era motard médico, tentou perceber se o ombro estava desencaixado e o que se passava.
Ainda ficaram comigo um bom bocado mas acabaram por seguir, eu tive que me convencer que não havia grande hipótese de continuar com o joelho que, todo esburacado, ainda assim era o menos tendo o ombro naquelas condições. Depois de várias vezes em que estive à beira de não terminar uma prova, desta vez tudo à minha volta e, pela primeira vez, também cá dentro indicava game over. Parei o Garmin, que já não iria comigo ao Hospital de Beja.
Dia 4: 242K, 9h44 de pedal, 1987 D+, @strava
A Andreia já se preparava para ir ter ao final do percurso, em Faro, e chegou antes de eu entrar pela ambulância. Depois de um quid pro quo sobre se me cortavam ou não o jersey (não cortaram) e a forma de me meterem dentro da ambulância, no percurso afinámos agulhas e posso dizer que quer os Bombeiros quer o atendimento no Hospital de Beja foram impecáveis. Atendimento express: Triagem, RX, ortopedista, enfermagem.
Ortopedista, a olhar para o RX: feio, mas nada partido. “É estupidez completa continuar?”, partilhando o que estava a fazer. “Completa não, em princípio só estraga mais se voltar a cair, mas obviamente vai ser quase impossível e vai ter muitas dores porque não tem fraturas aparentes mas isso está uma miséria”.
Next stop, enfermaria. “Sr. João, falta substância (chicha) no joelho”, ou seja, não dava para fechar. Fiz que sim com a cabeça mas nem me dava jeito coser, pensei logo eu, porque acabava de ganhar esperança em talvez ainda tentar.
Foi a primeira vez que andei de ambulância a meio de uma prova, o que me fez sair da armadura. Mas entre isso e desistir ainda ia uma grande distância. O racional era simples: de uma valente empanadela não me livrava, ia estar todo estragado no dia seguinte e provavelmente mais uns tempos. A diferença é que juntaria a isso o não ter terminado e, conhecendo-me, ia piorar significativamente um quadro que já não se adivinhava muito agradável.
Liguei à Andreia a dar notícias e para avisar que queria tentar. Pedi para voltar ao sítio do acidente e, pelo menos para experimentar das umas pedaladas. Na verdade, não tinha quaisquer bons argumentos, apenas respeito pelos kms que já trazia e pela vontade de tentar.
De volta a Aljustrel, o restinho de Sol que estava era apenas o suficiente para me pôr outra vez na estrada. Tinham passado quase 3 horas. O Bruno estava compreensivelmente preocupado sobre se seria possível fazer o resto do percurso com o mínimo de segurança e também com o NorthCape daí a pouco mais de um mês.
Novamente o pensamento, fico já aqui ou insisto? A cabeça não era muita com a falta de sono e obriguei-me a ponderar muito bem, demoradamente, as várias opções. E fui dar ao mesmo: não me livrava de estar em más condições no dia seguinte, a diferença é que poderia ter em cima disso uma desistência ou ter chegado ao fim depois dos dias que já lá iam. Era morrer na praia… ou dar-me uma hipótese de terminar.
Com este espírito, ensaiei umas pedaladas por uns 30 metros e, ao dar a volta para regressar ao carro, tinha-me convencido de que era realmente absurdo, que não estava em condições e pronto, tinha que aceitar. Doía-me tudo, não tinha equilíbrio, o joelho dobrava mal.
E foi aqui. Não sei explicar, mas a sensação de dar a volta e ser eu a decidir ficar por ali causou uma reação ainda maior. Não, vais tentar. Vais mesmo tentar e, se não der, páras. Mas enquanto der, vais.
Com o cansaço sub-avaliei o que faltava de estrada, só queria saber se aguentava as dores. Na minha cabeça eram “umas 3 horinhas” a penar e a coisa fazia-se. A verdade é que era de noite e faltavam quase 130 kms e, especialmente penoso no estado em que estava, descer o Caldeirão em direção a Faro.
Os kilómetros foram passando e, mesmo com a intra-muscular, o joelho fazia-se sentir e o braço ficava pendurado em certas posições (assim que voltei percebeu-se que era uma questão de tempo até ser operado para reparar 3 tendões e colocar as respetivas cavilhas de fixação). Para “ajudar”, por causa do frame bag, os porta-bidons eram “side load” e estavam de acordo com a mão destra, virados para a direita: ou seja, para beber só parando a bike… e arrancar só com um braço e a bike carregada era um exercício de circo. Ainda me tentei pôr de pé duas ou três vezes mas isso então era ficção científica. As descidas, com muita calma que o cansaço já era muito e esta nova destreza pedia muito mais cabeça que coração.
Passou-me muita coisa pela cabeça, se estaria a fazer bem, o Inça ia perguntando como estava e trocavamos bolas sobre como ia ser com o NorthCape. Passaram Castro Verde, Almodôvar e o Caldeirão. Mais raiva e orgulho que pernas, mas não foi nada má a subida, embora o caminho parecesse interminável, sobretudo a parte depois do miradouro.
Descida para S. Brás longa e dolorosa… muito pior que a subida como, de resto, já tinha antevisto. Ali era mesmo só sentir e não havia por onde fugir. Aguenta e transcende, só mais 10 kilómetros. E bora, outra vez, agora é que é, são mais 10. Ou 20, já se vê. Depois são só mais outros 10. Ri-me sem achar graça nenhuma. Mas ri-me. Estava a ser toureado por mim próprio.
Placa de Faro. Ainda faltava muito mas era um alívio. Esqueço momentaneamente as dores e vamos lá encerrar isto. Cruzamentos, semáforos, luz nas ruas e a cortina a fechar-se sobre muitas, muitas horas de pedal.
Entrada na via rápida junto ao aeroporto e assim que cheirou a fim foi de raiva a esvaziar o depósito e queimar os últimos cartuchos.
Passagem para a Ilha de Faro, pela primeira vez, o meu mundo inteiro era cheiro a mar e a cais, dores e o som de areia debaixo da borracha dos pneus.
Garmin a apitar… ‘Course complete.’
Gritei VAMOOOOOS!!!!!!! … estava feito!! Esta foi a ferros!
Dia 4, lado B: 124K, 5h09 de pedal, 1272 D+, @strava
Sobre o material:
A máquina portou-se à maneira, para além do desviador tinha acabado de lhe colocar rolamentos pedaleiros novos. Os Defender foram espetaculares e cumpriram com a promessa always on, que não conseguiria com lentes de contacto.
Sem paragens por furo, levei tubeless com líquido (e percebeu-se bem pelos rastos de spray branco no interior do triângulo traseiro que houve mais que um).
Sem dínamo, tive algumas preocupações que preferia ter passado ao lado, vou arranjar (PedalCell).
Sobre o físico:
O aquiles parecia ter entrado numa espiral negativa durante 2 dias, já bastante espessado, aparentemente irrecuperável. Mas melhorou bastante no quarto dia mesmo com poucas horas de descanso, sem que eu perceba porquê.
A comida funcionou bem, primeiro e segundo dias com Hammer de manhã mas 70% a sandes de queijo com manteiga. Muito diferente das outras provas de estrada e triatlo, aqui a intensidade é bem menor e a digestão perdoa mais. Calorias para dentro, variadas, com uns favoritos testados parece ser a receita.
Por falar em comer, acabei com a boca um desastre, rebentada dentro e fora. Protetor para os lábios e proteger o céu da boca de côdeas grossas e bolos secos porque, uma vez ferido, comer torna-se uma dureza.
Sobre a mente:
Passei por mais alguns desafios e zonas novas de desconforto, sobretudo na chegada à Torre e em Aljustrel. Ainda não foi desta que tive um DNF, um selo por quebrar que me vale um boost extra sempre que entro em dificuldades, embora reconheça que neste caso teria sido plenamente justificado. Quando ia na ambulância já estava bastante conformado. Há uma linha estreita entre força/resiliência e estupidez e andei por essas redondezas. A verdade é que foi importante manter a cabeça fria. O preço estava pago, o parecer do corpo médico no hospital foi essencial, o resto foi garra e vontade de acabar. E ainda bem, não teria gostado de me arrepender na manhã seguinte.
Um forte abraço ao Bruno pela camaradagem, com o desejo que volte para fazer o seu Divide com toda a sorte mecânica.
Eram 2 da manhã e andávamos à procura de sítio para dormir antes de conduzir para cima. Uma palavra muito especial para a Andreia por todo o apoio e paciência com estes desafios fora da caixa.
Sobre o desafio:
… epá, que dizer? Obrigado à organização, são incríveis a simpatia e espírito do Carlos Sousa. Que bela barrigada de Portugal! Densa, concentrada. Obviamente que há infinitamente mais para ver, mas em 4 dias? O Divide, por formato, pela sua natureza, foi como um sortido rico, um pouco de tudo. De ares, quentes, frios, secos e húmidos. De manhãs, tardes e noites. Amanheceres e entardeceres. Pores-do-Sol. Cores, modos, sons e sotaques. Foi um prazer e uma viagem interior. Recomendo muito.
E faltam 6 semanas para o NorthCape4000.