Portugal Divide 2021

Parte I: de Cevide à Torre

Background

O Portugal Divide surgiu de uma ideia já com um ano e serviria de test ride para o NorthCape 4000.

O “Portugal Divide” consiste na interligação, de bicicleta, ao longo de uma única etapa, do Centro Geodésico e dos Pontos Extremos de Portugal Continental. A rota é livre, podendo o Bikepacker escolher o seu caminho, fazendo-o por terra, asfalto ou um mix de ambos. O PD poderá ser percorrido, em qualquer altura, individualmente ou em grupo, numa “luta contra o tempo” ou no mais puro lazer.

Estavamos em fins de Maio 2021 e vinha de uns meses parado a recuperar de uma longa lesão no joelho. Resta dizer que, fora um pequeno teste na N4 e a travessia da N2, foi a primeira “prova” em autonomia multi-dias.

O planeamento foi q.b., escolha de rota com o Bruno Inça num par de horas cá em casa, entre o Google Maps e desenhos no Komoot. O NorthCape4000 seria com rota fixa e o mais importante era mesmo ter mais tempo de selim e testar os materiais e rotinas.

O que não sabia é que o azar ia bater à porta: o apoio braze-on (rebitado ao quadro) do desviador dianteiro decidiu ceder na segunda pior altura, isto é, uns dias antes (a pior teria sido durante).

Depois de muita pesquisa, consegui encontrar um apoio em 2ª mão, que fui buscar à MoveFree, em Torres Vedras. Restava a operação em si, que implicaria perder a garantia caso não fosse à marca. E no circuito da marca aceitariam? Chegaria a tempo?

Sem tempo a perder, ainda fiz um treino ou 2 de rua em modo “1x”, mas vingou mesmo o circuito de assistência da Specialized. Entre a avaliação da melhor solução, desmontagem, entrega no agente, ida e volta a Espanha e remontagem foram menos de 10 dias. Kudos para a Specialized, que honrou a garantia do quadro e sobretudo para a Kombina, que fez acontecer.

Com um apoio novo rebitado ao quadro mas sem slots de oficina, fiquei com um puzzle em mãos, daqueles que gosto muito. Ainda por cima tinha um novo selim para experimentar – uma cena diferente, da Infinity.

Nos dias seguintes ainda adiámos uma vez a partida devido ao mau tempo e à experiência que tive uns anos antes ao fazer a N2 em 3 dias de Novembro, com uma meteorologia miserável.

Acabámos por ir no Dia da Criança o que, vendo bem, é adequado 🙂

A viagem de comboio começou ao fim da tarde na estação do Oriente e com destino Valença. Fez-se bem, entre o querer dormir para pré-carregar as baterias para a saída madrugadora que aí vinha e o excitex.

-> Lesson learned: Uma tomada USB é boa, um adaptador com 2 fichas e boa amperagem de saída é ainda melhor!

-> Lesson learned: NA CP, com um setup destes, é de tirar os sacos antes de pendurar a bike – máximo do suporte são 15 kg. Neste caso até respeitava porque a bike é leve e tirei os bidons, mas fica a nota.

Eram umas 23h e comemos qualquer coisa que levávamos na estação deserta em Valença e esperámos pela chegada do táxi combinado. Era uma carrinha relativamente grande mas nem por isso a bike se safou de ir no banco traseiro e com uma entrada “apertada” que me deixou desconfortável. A certa altura começámos a descer, descer, descer e chegada a Cevide. São (ou pelo menos era o que se via) 3 ou 4 casas, o taxista também não conhecia.

Ali ficámos com um cão por companhia que lá nos ia ladrando entre o vai e vem, desaparecendo pela neblina da ponte.

Tentámos dormir qualquer coisa, eu com a manta térmica por cima de umas ervas e o Bruno sentado num tronco. A ideia era dormir umas 2h e arrancar às 4 mas acabámos por sair pelas 3, 1h mais cedo, por ter configurado o alarme já o telemóvel estava na hora espanhola. Bem, antes mais cedo que mais tarde!

-> Lesson learned: confirmar a hora do alarme quando os overnights são em zonas de fronteira

Dia 1

Acordámos, ou seja, levantámo-nos um bocado azamboados, e lá fomos até à emblemática ponte, onde ainda levámos uns minutos à procura do carimbo para fazer a coisa by the book mas, sem sorte e com a chuva a começar a borrifar-nos, lá iniciámos as valentes rampas por ali acima.

A inclinação da coisa e sobretudo o piso de pedra irregular e molhada obrigaram-nos a fazer uns lanços a pé. As mudanças não estavam boas, 3 carretos de cima – que bem precisava naquela altura – sempre a saltar, situação que se manteria até final. Aí, depois de uma chuva agora de asneiras, lembrei-me do amasso ao entrar na carrinha. Achei picuinhas estar a chatear o homem do táxi, mas a bike foi metida sobre o drive side (com as mudanças) contra o banco e o resultado estava à vista. Numa empreitada destas os pormenores tornam-se pormaiores.

Várias vezes de pé no chão, que a chuva molhava o que havia com o mínimo de tração e as mudanças pesadas assim ditavam.

-> Lesson learned: verificarás sempre o material, sobretudo quando foi mexido por outros. Melhor, sê picuínhas, não será mexido por outros e pronto!

-> Lesson learned: é possível fazer este número com sapatos de estrada (com sola lisa e dura), mas não é aquela experiência tão rica… 🙂

Lá seguimos na nossa subida contínua, primeiro em rampas manhosas depois em estrada, sempre a acordar a cãzoada pelo caminho. Uns valentes kilómetros a subir até que chegámos a um ponto alto já com a claridade a rebentar e um gelo no tronco na descida próprio de quem esteve a aplicar-se na subida.

4 horas depois da partida chegávamos a Verín, com um pivete terrível nos 20 kms antes devido à quantidade impressionante de pocilgas! Entre danceterias e casinos deixámos Espanha e cruzámos a fronteira para Chaves, onde comemos um bom pequeno almoço e água. Foram as primeiras de literalmente dezenas de sandes de queijo que alimentaram a aventura.

Rampas à saída de Chaves de má memória, o sinal da rede móvel nem sempre é o melhor e em estradas serranas com várias opções é fácil perder a rota por algumas centenas de metros. 2 ou 3 paragens para validar o Livetrack e comparar Garmin vs. Komoot vs. Livetracker. Este último, apesar dos inúmeros testes, teimava em ter períodos de falha e acabei por mais que uma vez a comunicar com a organização para garantir que estava a reportar a posição e dentro do regulamento.
A verdade é que, apesar dos múltiplos ensaios com sucesso antes da prova, a aplicação não conseguiu ser fiável no modo Power Save do telefone (Samsung S10) e acabou por ter que ir no modo normal com um consumo de energia muito superior ao esperado.

A estrada empinava, o calor apertava e parámos num suposto café junto à estrada. O homem olhou para nós “Coca cola? Comer? Não há nada disso.”

Parámos numa subida e bem souberam umas cerejas a rachar de maduras que sacámos até onde os braços chegavam, a barriga logo havia de se queixar mas havia prioridades.

O planeamento de rota foi… amador. Nós sabiamo-lo, agora estávamos a provar no lombo. Apanhámos uma “estrada” horrível, uma subida interminável com spots de alcatrão entre o manto de buracos, condições verdadeiramente péssimas. A pendente não ajudava, as mudanças a saltar também não e senti pela primeira vez uma dor forte no aquiles depois de um desses saltos e aterragem no novo carreto. 

-> Lesson learned: Dividir o planeamento do caminho em etapas mais curtas, com otimização por segmentos em vez de ser à bruta start to finish. Fazer com o mínimo de tempo ajuda.

Continuámos o push e a paragem seguinte foi em Podence, terra dos Caretos, para comes e bebes num café, com as primeiras Ruffles de presunto a serem encetadas e ganhar lugar na bolsa da frente. Arranque breve e nova paragem à saída para aplicar protetor solar que a tosta era grande. Uso e recomendo o Rieman P20 (50+) que dura 10h e não desfaz com o suor.

Seguimos mais temperados mas já a acusar as horas de pedal. Ainda assim, por qualquer marretada que a estrada pudesse atirar, havia sempre a beleza natural daquelas terras para distrair e recompensar. Duas subidas longas, com 300 e 400 metrinhos de ganho ajudavam a meter tudo em perspetiva.

Já ao fim da subida comecei a cabecear e a sentir leveza a mais. Fechei os olhos uma ou duas vezes e, como o radiador apitava mais forte e forcei uma paragem em Carção para molhar a cabeça numa área de serviço e logo a seguir parar num snack para repor calorias. Sandes de queijo com manteiga. XXL.

Numa destas subidas passou por nós uma ambulância do INEM o que, sem querer ser spoiler, já andava à caça!

Depois de Carção, novamente os mesmos sintomas a caminho do Vimioso e, a meio da segunda subida, o horário da alvorada já fazia mossa. Ao terceiro “cabeceamento para golo” avisei o meu companheiro de luta, saltei o rail, manta térmica no chão, logo decorada com uns furinhos porque a pedra era abundante, e ali bati a pestana por 20 m que fizeram maravilhas.

-> Lesson learned: manta térmica não chega, para a próxima trazer bivvy bag para o que der e vier… incluíndo estas paragens curtas.

Passagem por Vimioso, a lembrar-me do Alexandre Dias a ver se bebíamos um café mas as horas já não estavam para brincadeiras e nem ensaiei o telefonema.

E o que se via mesmo ali à frente?! Mirandesas! Passámos por elas com todo o cuidado, diretos à encruzilhada de caminhos já dentro de uma aldeia e já com o Sol de abalada estávamos prestes a chegar ao 1º checkpoint. 

Ainda se desce um pouco por terra batida e alguns calhaus até ao Miradouro. Ainda estivemos algum tempo à procura do carimbo e finalmente lá apareceu. A Penha tem uma vista fantástica, as fotos não fazem justiça.

Uma belíssima Posta Mirandesa na Gabriela, dica do António Francisco, com o bónus de ter os quartos mesmo por cima. Há melhor 2 em 1? Não há!

Lá fomos ao sono dos justos depois de um dia valente, com muita subida e o relógio biológico ainda a perceber o que lhe fizeram. One down!

Dia 1: 308K, 14h24 de pedal (49% das quais a subir), 5516 D+, @strava

Dia 2

Alvorada!! Saída de Sendim pela N221 ainda pela fresca mas com uma ligeira sensação de poder ter saído mais cedo, uma espécie de “estar em falta”. Calma, juízo.

No detalhe, as rotas eram uma desgraça. Isto seria uma constante ao longo do caminho e fui aprendendo a fazer os zoom-outs e ignorar as indicações a maior parte das vezes. Faltou mesmo TPC…

Depois de uns kms a rolar plano, uma subida longa e dura a chegar a Foz Côa, mas muito muito compensadora.

Pequeno almoço como deve ser em Torre de Moncorvo, folhados em barda e tudo o que aquele café tinha para oferecer àquela hora da manhã. Ala que se faz tarde.

Nestas paragens as aerobars eram decorativas e logo tratei de lhes arranjar função: estendais Pombinho, entra molhado sai sequinho! 🙂

Mais uma cena komootiana no Carvalhal, onde fomos fazer um caminho de lajes de rocha que nem para animais se parecia e depois de uns minutos de pena e asneirada da boa, lá fomos dar à estrada de alcatrão que era simplesmente o caminho para pessoas normais.

Seguiu-se Trancoso, onde parámos num café e foram ingeridas calorias compatíveis com um almoço, entre salgadinhos e sandes.

Retemperados, numa descida longa por um vale com uma vista magnífica, parecia bom demais para ser verdade. E assim foi. Ao passar por Forno Telheiro, o aro de carbono da bike do Inça sobreaqueceu, começou a fazer um barulho estranho e deformou brutalmente de forma repentina – foi um milagre não ter dado um malho daqueles por ali abaixo!

Nem queríamos acreditar no que estava a acontecer… descida lenta, a pé até Lameiras, ainda fizémos umas tentativas para arranjar roda mas sem sucesso. Em Barco entregámos os pontos. custou-me não conseguirmos pensar num plano, alguém que arranjasse uma roda para desenrrascar, uma loja de bicicletas. Mas não havia mesmo solução imediata, fist bump e o Bruno foi apanhar o comboio a Celorico.

No preciso momento em que fiquei sozinho na estrada deixei outra vez de o estar. Lembrei-me do meu Pai, dos seus tempos e histórias de Coimbra e tive companhia na longa subida à Serra da Estrela. Estava mesmo muito moído do dia anterior e com a inflamação o aquiles já estava um trambolho, com a meia direita visivelmente mais gorda atrás e eu numa ginga para fugir à dor.

Já estava a gerir e o caminho ainda era longo para chegar a Gouveia. Comecei então na fase das subidas largas, a passar de vertente para vertente e verdadeiramente a desfrutar do que via à volta. Apesar de tudo estava com bom espírito, temos que trabalhar com o que a estrada nos dá. 

O sono é que já se começava outra vez a fazer sentir e, tal era o cansaço, hesitei na cortada para a Torre (Sabugueiro ou Manteigas) e lembro-me da frustração na descida para o Sabugueiro me sentir a “desperdiçar” metros. Not thinking straight.

A subida estava particularmente bonita, sem um céu azul demasiado chato e aberto que fosse desinteressante mas com umas nuvens nos sítios certos a dar densidade à coisa. E há pontos da subida em que por mais pressa se tenha, só há uma coisa a fazer: parar, desmontar e tirar um par de chapas.

Ao chegar à zona da barragem fechou-se o nevoeiro durante uma meia hora a ponto de ter tido bad vibes, liguei o Varia Radar e ainda me mandei para a berma um par de vezes para ver de perto o rail metálico com uns aceleras que se acham imortais e apertam nevoeiro adentro.

E foi já com o dia a fechar, modo pôr-do-Sol e abençoado por uma ventania das antigas que finalmente cheguei à Torre. Fiquei uns minutos a absorver, estava notoriamente em défice calórico e o azar do dia já não me permitiria chegar cedo à Covilhã  para um jantar retemperador como tinha idealizado.

Descida apressada e gelada, já noite e já fora da zona de segurança parei logo nas Penhas da Saúde onde fiquei na Pousada da Juventude e me arranjaram simpaticamente um jantar improvisado já fora de horas com peitos de frango, atendendo ao estado em que me apresentei. Boa gente. Isto depois de 10 minutos a aquecer na receção antes de conseguir falar com quem quer que fosse.

Belo duche e caminha na camarata onde fiquei sozinho, com a bike à janela do lado de fora, num corredor. Devido à hora do pequeno almoço e, sobretudo, ao estalo do fim de dia anterior, decidi que iria dormir umas incríveis 7 horas e meia.

Dia 2: 235K, 12h50 de pedal (56% das quais a subir), 5010 D+ @strava

Continuação em Portugal Divide 2021 – Parte II: da Torre à Praia de Faro